AS EMOÇÕES FAZEM PARTE DE UM DEBATE DE IDEIAS?


por Nadja Ponte Nogueira 


É cabível usar das emoções para debater? É útil? É aconselhável? É isso que este texto pretende discutir. Para tal, primeiro iremos tratar um pouco de teoria -  o que é Pathos e como ele participa do debate - e, em seguida, observaremos as regras de competição, para saber como pontuar com esse recurso.

Assim sendo, Aristóteles fala em sua obra que a Retórica é a arte de buscar o convencimento. Nada mais é que desenvolver uma habilidade que a maioria de nós possui, a fala. É buscar a proficiência em falar. 

Ele diz que o convencimento pode ser atingido de três formas, pelo que chama de meios de persuasão: Logos, Ethos e Pathos. Logos é o apelo ao intelecto de seus interlocutores, é demonstrar racionalmente a validade de suas ideias. Ethos é apostar em sua própria imagem para persuadir, é investir em sua aparência e precedência para que seu auditório o considere confiável. Por fim, e o que interessa para nós, neste artigo, Pathos é apelar ao emocional de seus interlocutores e demonstrar a validade de suas ideias por meio da emoção evocada.

É bem evidente que, no linguajar de debates, Logos corresponde à argumentação, à estrutura de discurso e à seleção de boas referências, e que Ethos está ligado à compostura, à segurança ao falar, à forma. Mas e Pathos?

No debate competitivo, Pathos está presente toda vez que se evoca uma emoção: raiva, carinho, amor, medo, compaixão. Isso pode ser feito pelo relato de uma história pessoal, pela citação de uma notícia de jornal ou até por uma obra artística (livro, filme, pintura, escultura), enfim, pela provocação de uma reação emocional.

Pathos é reconhecer que somos humanos e que nossas decisões são revestidas de uma capa emocional. É comunicar-se com a plateia em um nível profundo. Enfim, é usar empatia. É falar aos olhos.

Cabe ressaltar que não se trata de ludibriar seus ouvintes. Em verdade, é sobre abordar emoções que lhes são caras. Afinal, somos orgânicos e os sentimentos ocupam uma boa parcela da nossa atividade cerebral. 

Imagine que em um dia ensolarado alguém lhe proponha um banho de piscina. Você pode fazer uma longa construção racional para fundamentar seu aceite: é preciso tomar sol, pois Vitamina D é importante para o corpo humano; nadar é um dos exercícios físicos mais completos, o que vai beneficiar sua saúde, e assim por diante. Porém, você também pode fundamentar sua ida em sua vontade de se divertir ou em querer conviver com seus amigos e rir um pouco. Inclusive, é provável que esta última linha argumentativa o convença melhor.

Trazendo esse mesmo raciocínio para um debate competitivo, suponha que você esteja defendendo uma moção sobre armamento civil: ao mesmo tempo em que se pode argumentar que alguns dos países com maior índice de armamento civil são também os mais seguros, como Suécia, Finlândia e Suíça, também é válido sustentar que o porte de arma civil dá ao cidadão uma chance de defender-se enquanto o serviço policial não chega. A diferença entre esses argumentos é que o primeiro é validado por estatísticas, e o segundo evoca a sensação de impotência diante do perigo, de desespero de um pai de família que nada pode fazer enquanto sua vida e a de sua família é ameaçada. O primeiro sustenta-se em fatos, e o segundo, no imaginário dos ouvintes.

Como se usa Pathos para pontuar? Bem, para investir em emoções, é necessário, antes de tudo, saber qual a ideia que você deseja fazer valer como verdade. Em outras palavras, qual o seu ponto, qual o núcleo do seu argumento. No exemplo acima, o orador queria que a plateia aceitasse como verdade que uma arma, nas mãos certas, pode evitar uma tragédia. A partir daí é que se escolhe qual emoção será evocada: é impotência, no caso do pai de família? É revolta com a demora da polícia? É admiração pelo pai que defende seus filhos? Existem muitas possibilidades e estão todas na mão do orador.

Nas regras dos campeonatos do IBD, falar do imaginário pode ser interpretado de diferentes formas: pode ser anotado como uma referência, como no caso de relatos pessoais, da citação de obras artísticas; ou como raciocínio, enquanto se contextualiza a moção ou um argumento.

Para concluir, algumas dicas:
  1. Lembre-se, não só de argumentos fundados em emoção é feito um discurso. Pathos é apenas um dos meios de persuasão, e um bom discurso explora os recursos disponíveis de maneira equilibrada. Um discurso inteiramente emocional fará com que a mesa sinta que seu pronunciamento foi vazio e que a única sustentação para suas palavras são emoções.
  2. Seja equilibrado. O uso de Pathos requer um pouco de drama e encenação, de maneira que é de bom tom atentar para exageros ou para a falta de expressão. Acredito que o grau ideal de expressão pessoal no debate estaria entre o 3 e o 7, em uma escala de intensidade de 1 a 10.
  3. Sempre harmonize seu discurso e o posicionamento de sua bancada. Na sala de preparação, ou mesmo durante o debate, lembre-se de checar se seu discurso está coeso em si próprio e com o de sua dupla. É um erro comum de debatedores iniciantes tentar fazer apelo ao emocional e proferir em seguida um argumento fundado em dados que desvirtua o momento de empatia que o precedeu.


Nadja Ponte Nogueira é mestranda pela Universidade de São Paulo (USP) em Direito Internacional Privado, Diretora de Pesquisa do Instituto Brasileiro de debates, membro emérito da sociedade de debates da Universidade Federal do Ceará (UFC) e membro fundador da Sociedade de Debates das Arcadas.


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