DIREITOS HUMANOS PARA ZUMBIS


A coluna Debate no Blog encerra o ano de 2017 com um debate pra lá de inusitado: os direitos humanos dos mortos-vivos. O quê? É isso mesmo.

Para debater esse tema, o IBD convidou os finalistas do IV Campeonato Brasileiro de Debates, Caio Alcântara e Pedro Ângelo, da Sociedade de Debates da UFC para debater a seguinte moção: "Esta casa acredita que zumbis possuem direitos humanos".

Esse tipo de moção é chamada de moção lúdica, ou seja, ela propõe um debate que opere em uma lógica que exija do debatedor não só conhecimentos factuais, ou científicos, ou inscritos em algum campo formal do saber, mas também criatividade e raciocínio aplicado. As moções lúdicas fazem partes dos campeonatos regionais e também do nacional, e costumam causar muitas polêmicas (além, é claro, de discursos geniais!).

Na nossa coluna, esta é a primeira vez que deixamos a moção explícita. Pedro fará o papel de deputado de Defesa, concordando com o texto da moção. Caio argumentará como deputado de Oposição, discordando do texto da moção (se você quiser saber mais sobre o modelo utilizado nos debate do IBD, clique aqui).

Ah, e claro, você também está convidado a participar da nossa coluna, seja comentando sobre esse tema aqui no blog ou nas postagens das redes sociais. Se quiser ir mais longe, chame sua dupla e proponha uma tema para vocês debaterem por aqui.

Boa leitura!


DIREITO À VIDA PARA OS MORTOS-VIVOS


Pedro Ângelo F. A. Passos



Zumbis devem ter seus direitos preservados? Esse pode parecer um questionamento esdrúxulo, mas quem observar atentamente vai perceber que essa é uma discussão profunda e relevante. Apesar de existirem incontáveis mitos sobre zumbis é importante deixar claro que não estamos falando sobre criaturas mágicas. No passado, eles foram descritos como seres que fugiram do inferno ou foram criados por magia negra, mas nós estamos debatendo dentro de uma perspectiva mais realista que considera que a condição de um zumbi foi causada pela infecção de um vírus ou bactéria. Dentro dessa perspectiva, uma epidemia zumbi deve ser tratada como uma questão de saúde, e os infectados devem ter seus direitos garantidos pelas autoridades do estado.

Acreditamos que essa doença seria transmitida através de mordidas, faria com que o infectado se tornasse agressivo e tivesse a aparência de um cadáver em decomposição, além de perder a sensibilidade para a dor como se estivesse constantemente anestesiado. Esses sintomas são muito semelhantes aos de duas doenças que existem atualmente: a hidrofobia e a hanseníase.

Assim como no caso da hidrofobia, popularmente conhecida como raiva, o vírus poderia se concentrar nas secreções dos infectados e ser transmitido através do contato delas com a corrente sanguínea de outras pessoas, o que geralmente aconteceria através da saliva presente em mordidas. A busca dos infectados por carne humana provavelmente seria explicada pela preservação de instintos básicos que os fazem buscar por alimento, mesmo que suas memórias e habilidades de raciocínio estejam atordoadas devido à ação neurotrópica do vírus. A doença atingiria o encéfalo e a medula espinhal, fazendo com que as pessoas contaminadas não conseguissem diferenciar seres humanos de qualquer outro mantimento que pudessem usar para se alimentar.

A aparência cadavérica, por outro lado, se explicaria pelas similaridades entre essa doença e a hanseníase, que ataca o sistema nervoso fazendo com que o infectado sinta que seu corpo está dormente e, por isso, não perceba feridas que podem apodrecer e se alastrar pelos seus músculos e pele.

Essa explicação já demonstra como a perspectiva do senso comum sobre essa questão é extremamente desumana. A mídia sempre consolida a visão de que zumbis devem ser combatidos com força bruta chegando a extremos, como o caso do filme Todo Mundo Quase Morto, no qual, seis meses após o início da infecção, os doentes foram subjugados por pessoas saudáveis e utilizados como mão de obra escrava, ou ainda o genocídio da população zumbi que foi demonstrado em Resident Evil 2, onde até mesmo uma bomba nuclear foi usada contra os infectados pelo vírus.

Uma abordagem bem mais adequada do que essas seria buscar por uma cura para os portadores do vírus e garantir que eles sejam tratados com dignidade até que esse medicamento seja desenvolvido. Seria sensato isolá-los em unidades médicas onde não pudessem ferir nem a si mesmos nem a outras pessoas, mas existem duas alegações intolerantes que são feitas contra essa perspectiva.

O primeiro desses preconceitos é a ideia de que a questão dos zumbis é um problema de segurança pública e não de saúde, pois eles podem representar um risco à outras pessoas. É importante comparar esse caso com outros em que a doença de um indivíduo pode levá-lo a ferir alguém, e o exemplo mais claro disso, na nossa sociedade, são portadores de transtornos mentais que cometem crimes por não compreenderem a lei e outras regras do convívio social.

A maioria dos países democráticos prevê que criminosos com transtornos psiquiátricos devam ser tratados em hospitais de custódia, pois possuem necessidades específicas e, caso a doença, que foi a causa de condutas inadequadas, não seja tratada, o mais lógico a se esperar é que essas condutas se repitam. O mesmo raciocínio deve ser aplicado aos portadores do vírus zumbi que estão tendo suas capacidades mentais alteradas por uma doença que atua diretamente sobre o sistema nervoso.

Outro preconceito que precisa ser desconstruído é a ilusão de que o uso da força bruta contra zumbis poderia ser uma forma de proteger a maioria da população. Esse raciocínio é baseado na ideia de que, ao assassinar um infectado, você impede que ele infecte outras pessoas e assim ajuda a impedir que a doença se alastre, mas não existem motivos para essa barbárie.

Enquanto outros vírus são transmitidos em situações inesperadas como a respiração (em casos como o do vírus da gripe) ou relações sexuais (no caso do vírus da AIDS) a contaminação zumbi seria transmitida quase exclusivamente por mordidas, o que facilitaria a identificação dos contaminados. Do ponto de vista da saúde, seria fácil desenvolver políticas para identificar os portadores do vírus e garantir que eles não transmitam a doença, pois o contágio exige uma interação muito direta e os sintomas são bastante evidentes. O temor que faz com que alguns desejem o assassinato dos portadores do vírus não tem fundamentos na realidade, pois essa doença seria facilmente contida.

Por fim, é importante falar sobre o receio de que a cura para o vírus zumbi deixe sequelas. A ideia de ceifar os portadores dessa doença para poupá-los das dores da contaminação ou da recuperação não passa de um truque argumentativo que tenta maquiar o assassinato com tons de piedade. Não estamos aqui para debater a eutanásia ou o suicídio assistido, mas precisamos afirmar que mesmo em países que legitimam essas práticas, os contaminados devem ter os mesmos direitos que os cidadãos comuns e isso significa que nos raros casos onde um zumbi ou ex-zumbi deseje passar por isso, o processo deve ser conduzido por profissionais de saúde e não por policiais usando armas e outras formas de violência.

O que nós queremos não são direitos exclusivos para a população zumbi, apenas garantias de que essas pessoas serão tratadas como os cidadãos que são, independentemente da doença que estão portando. O site americano zombierightscampaign.org já vem levantando essa discussão há quase dez anos de uma forma muito tocante. Quem for capaz de ler as demandas feitas no site ou mesmo nesse discurso sem se sensibilizar, com certeza está mais morto do que qualquer zumbi. 




MANIFESTO EM DEFESA DA HUMANIDADE


Caio Henrique Alcântara 



Encurralado, o homem aponta o revólver para a cabeça da criatura que avança inexoravelmente em sua direção. Tendo em suas mãos o poder de salvar-se, hesita. Nem mesmo os globos oculares vazios que encaram o cano da arma são suficientes para impedi-lo de lembrar daquele olhar. Naquele rosto putrefato, vê a face de seu amor. Paralisado, incapaz de agir, aguarda pelo último abraço.

Assim como o personagem da cena narrada, a defesa dos Direitos Humanos para zumbis é guiada por emoções distorcidas, que se utilizam da similitude aparente destes seres com nossa espécie para nos fazer esquecer o que de fato nos torna humanos. O que devemos ter em mente é que, enquanto no primeiro caso apenas um indivíduo tem sua vida ceifada, o apoio à moção tem por consequência o extermínio da humanidade - metafórica e concretamente.

Ocorre que, apesar da controvérsia relativa ao início da vida humana, inclusive já abordada neste blog, a ciência encontra consenso ao definir o encerramento da atividade no córtex cerebral como marco de falecimento do indivíduo. Nesse sentido, interrompida a atividade cerebral em decorrência da infecção, o que retorna é um ser parasitário, que utiliza da estrutura corpórea deixada pelo morto para satisfazer a suas necessidades e garantir sua sobrevivência.

Cabe destacar a ironia no fato da Defesa demonstrar tamanho empenho no reconhecimento dos zumbis como seres humanos quando nem mesmo estes se reconhecem como tal. Perceba, caro leitor, que os mortos-vivos trabalham em regime de total cooperação entre seus iguais, aproveitando-se de sua crescente superioridade numérica para, em conjunto, sobrepujarem a raça humana. Decisiva demonstração do aqui alegado é o fato de que os próprios zumbis estabelecem a diferenciação aqui defendida, não atacando uns aos outros, mas vitimando apenas seres humanos.

Alega-se que zumbis são equiparáveis a pessoas enfermas que, incapazes de manifestar racionalidade, acabam até mesmo replicando o comportamento violento desses monstros. Tal raciocínio, ao basear-se na perspectiva de que zumbis decorrem da infecção por um vírus, ignora o fato de que o comportamento homicida característico dos mortos-vivos não possui origem na alteração de uma psique existente, mas na reanimação de um corpo no qual os elementos constitutivos da personalidade humana não mais existiam.

Aspecto essencial para a devida compreensão da natureza dos zumbis é que consideremos a forma humana, fator que mais diretamente nos leva a concluir pela humanidade destes seres, como mero fantoche de controle viral, deteriorada ao ponto de não subsistir fora deste domínio. Qualquer discussão sobre a cura levanta apenas a possibilidade de evitarmos novas infecções, já que os organismos dos corpos hoje zumbificados, se capazes de exercer suas funções de forma independente, não haveriam colapsado em primeiro lugar.

O critério biológico até o momento abordado, ainda que suficiente para afastar a aplicação de Direitos Humanos para zumbis, não esgota a discussão aqui levantada, visto que a definição de humanidade, apesar de perpassar tal critério, mostra-se muito mais profunda e complexa. Nesse contexto, importante que seja feita referência a Joseph Fletcher, americano pioneiro no campo da Bioética, que prelecionava: falar em ser humano é falar em critério de humanidade, como autoconsciência, comunicação, expressão da subjetividade e racionalidade. 

Constatem que zumbis não atendem a nenhum destes requisitos, falhando em demonstrar qualquer semelhança conosco superior ao DNA de suas células, elemento que, embora compreenda requisito, não é capaz por si só de conferir a estes seres o status almejado pela Defesa.

Curioso perceber que a busca pela extensão da aplicação de Direitos Humanos a zumbis, conforme propõe a moção, acaba por resultar exatamente no fim da Humanidade. Conforme conclusão de pesquisadores da Universidade de Leicester, Inglaterra, após apenas 100 dias de apocalipse zumbi restariam 273 pessoas vivas no planeta! Qualquer postura que não a de combate maciço aos mortos-vivos, com a utilização da totalidade de nossos esforços na missão de exterminá-los, acabaria com as discussões relativas a Direitos Humanos na medida em que não mais existirão humanos para gozar destes direitos - nem para realizar as discussões.

Concluo minha oposição à moção ressaltando que zumbis, seres irracionais que caminham sem rumo, trazendo consigo apenas morte e destruição, ameaçam nossa existência. Seres humanos, cotidianamente divididos por suas nacionalidades e crenças, possuem uma oportunidade única de se unir enquanto espécie. Que diferentemente do personagem padrão das histórias, a humanidade tenha a reação necessária, pois nosso compromisso com os infectados deve ser o de impedir que seus entes queridos sofram o mesmo destino. O único direito dos zumbis é o de permanecerem mortos.








DEBATE NO BLOG
A coluna Debate no Blog foi criada para que você, nosso leitor, possa experimentar um pouco da dinâmica de um debate de ideias.

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