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Instituto Brasileiro de Debates

Da escuta à Amizade

22, Mar de 2017

Pluralismo, diversidade, inclusão, tolerância. Se você vive em um país minimamente democrático no início do século XXI, essas palavras fazem parte da pauta das suas discussões no trabalho, em sala de aula, na mesa do bar, no almoço de domingo com a família. E, se não fazem, deveriam fazer.

Essa agenda não é aleatória, nem arbitrária. Ela é fruto de um momento da história da civilização em que os povos e nações ficaram(?) muito mais próximos. Outros sujeitos e outras culturas tornaram-se nossos vizinhos, entraram dentro de nossas casas e de nossos relacionamentos. São pessoas com outros olhares e crenças, com concepções de mundo e repertórios éticos fundamentados em princípios muito divergentes dos nossos. E o diferente assusta. Como canta Caetano, "Narciso acha feio o que não é espelho". Assim, a tal distância, que poderia ter diminuído, tem tomado proporções abissais.

O resultado desse abismo já é bem conhecido por nós: preconceito, discriminação, violência, guerra. Vou assumir aqui que meu leitor concorda que esses não são bons caminhos. Como fazer, então, para que essa proximidade transforme-se em amizade, e não em animosidade?

Conversar.

Contudo, essa simples ação humana tem sido cada vez mais rara.

Um dos comportamentos que mais me chama atenção nos dias de hoje é quando, em uma conversa entre amigos, percebo que estão todos falando, mas poucos estão ouvindo. Parece que cada um está esperando sua vez de falar, independentemente do que está sendo falado pelo outro. Não há interlocução. A voz alheia não entra, não remexe lá dentro. A fala de um não conta na fala do outro e vice-versa. E isso é muito triste, pois o alívio e a beleza de ouvir uma ideia que não seja a sua própria pode ser libertador. Pode ser libertador não só porque nos traz novos conceitos ou raciocínios sobre um tópico, mas também porque nos lembra de que não enxergamos tudo; de que algo que nos toca e nos enriquece não estava ainda em nosso pensamento.

Esse mecanismo é essencial quando voltamos ao nosso assunto, que é o respeito ao próximo, pois respeitar tem a ver com ouvir. Ouço, logo compreendo. Compreendo, logo respeito. Respeito, logo ouço.

São estes, a meu ver, os grandes desafios deste nosso século: ouvir, compreender e respeitar. Desse modo, talvez possamos aceder a um lugar ainda mais profícuo e poético, que não se restrinja a apenas tolerar o diferente. Um lugar – um tempo – em que nosso desejo de conversar com o outro, de compreender o outro, entranhe-se em nosso cotidiano. No qual esse outro seja inspiração para o aprendizado, para o debate de ideias, para a reflexão. Para o crescimento.

Por fim, faço soar também minha esperança: a de que esse alguém – já que pode nos oferecer tanto – possa ser, mesmo tão diferente, chamado de amigo.



ULISSES BELLEIGOLI é diretor do IBD, psicanalista e escritor, mas gosta mesmo de ser creditado como contador de histórias.

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[este texto faz parte da edição especial da Chicundum sobre o IBD. Para saber mais sobre essa parceria, você pode clicar aqui]