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Instituto Brasileiro de Debates

Por que falar bem?

22, Mar de 2017

Cícero é engenheiro há seis anos, graduado na melhor universidade do Brasil e pós-graduado numa das gigantes da Ivy League. Além disso, fala três idiomas fluentemente (é modesto demais para incluir o mandarim arrastado no currículo) e trabalhou, desde cedo, na empresa que a revista especializada chamou de ?a mais cobiçada pelos estudantes de engenharia?.

Há alguns dias, com um abraço apertado, despediu-se dos colegas de trabalho. Chegara a hora (finalmente!) de afrouxar o pé-de-meia e dedicar-se full time ao sonho de empreender. A ideia nasceu numa noite insone e, três anos e dezenove ?como ninguém pensou nisso antes?? depois, já contava com outro sócio, funcionário com carteira assinada (sábio advogado) e uma reunião importantíssima agendada com possíveis investidores.

No dia da reunião, Cícero está nervoso. Terá ? com boa vontade ? quinze minutos para impressionar, nada mais. A porta abre, e a apresentação começa. Quinze minutos depois, fracasso. ?Bom dia? no lugar de ?boa tarde?, ideias sem conexão, branco atrás de branco, pronúncia irreconhecível do inglês e as onomatopeias do bicho-mau-falador (?eh...?, ?ah...?, ?hum...?). Até o ?grand finale? planejado Cícero esqueceu na metade, e, por alguns segundos, ninguém entendeu se a apresentação havia acabado ou não.

Seis anos na empresa dos sonhos, uma formação acadêmica exemplar, fluência noutros idiomas e uma ideia de negócio revolucionária. Em quinze minutos, contudo, Cícero foi outra pessoa, e quem o ouviu sequer suspeitou de seu potencial. O que diabos aconteceu?

É preciso entender, antes de tudo, que a fala é um exercício de aproximação. Quando fala, o sujeito busca aproximar aquilo que diz do que quer dizer. Querer dizer, todavia, pode ser bastante diferente do que se diz.

Quando Cícero falou, tentou, com todas as forças, aproximar as palavras de sua boca das ideias de sua cabeça, esforçando-se para que os investidores enxergassem estas como ele. Cícero fracassou, porque, nesse tempo, usou as palavras erradas para as ideias certas. Nesse exercício de incoerência, o seu potencial converteu-se em algo diferente para o público, que nada pôde fazer senão acreditar naquilo que ouviu, sem pista do que mais haveria para ouvir. Como disse M. Qahtani, campeão mundial de public speaking em 2015, ?você pode ter algo muito bonito para dizer, mas o diga com as palavras erradas, e (nesse momento, Qahtani faz sons de algo levado pelo vento) isso vai embora?.

O exercício vai além da fala. Já imaginou se, por conta de uma má escrita, Tolkien ou Lewis houvessem afastado o leitor da Terra Média ou do Reino de Nárnia? Ou se, numa escolha errada de palavras, Machado de Assis houvesse deixado escapar uma certeza estraga-prazeres sobre os dilemas de Bentinho que meticulosamente calculou?

A boa comunicação é, pois, isso. Para alguns, falar bem é impressionar, persuadir ou até falsear (ideia associada, inclusive, a algumas figuras públicas). A verdade, porém, é mais simples: falar bem é ser coerente com o seu potencial.



ANTÔNIO VITOR MELLO é diretor do IBD e sócio da Parle Comunicação. Viaja por todo Brasil ministrando cursos e palestras sobre retórica e argumentação.


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[este texto faz parte da edição especial da Chicundum sobre o IBD. Para saber mais sobre essa parceria, você pode clicar aqui]